Família Boscolo

Identificação

Meu nome é Roberto Boscolo nasci em São João del-Rei, Minas Gerais, no dia 8 de setembro de 1947. O nome de meu pai é Carlos Boscolo e de minha mãe Amélia Zanola Boscolo. Meus avós maternos são: Alice Zulmira de Paiva Zanola e Américo Zanola. Meus avós paternos chamam-se: Praxedes Carazza Boscolo e Luiz Boscolo.

Origem/Família

Meus pais nasceram aqui em São João del-Rei mesmo, mas dois dos meus avós nasceram na Itália e uma avó nasceu aqui na cidade. Eu tenho onze irmãos, seis irmãs e cinco irmãos.

Chegada dos avós italianos

Os meus avós maternos vieram para cá em 1888 de Florença, porque aqui ganharam terrenos que foram divididos em vários lotes nas diferentes colônias. Quando a lavoura começou a fracassar eles foram trabalhar nas fábricas, todos eles foram trabalhar na Fábrica Sanjoanense. Meus tios que trabalhavam na lavoura inicialmente, depois foram para a rede ferroviária e montaram fábricas de móveis e nelas trabalharam. Minhas tias maternas foram as primeiras operárias da Fábrica Sanjoanense que receberam o título de operária- padrão brasileira. Meus avós paternos vieram de uma região melhor da Itália, vieram de Veneza, eles já sabiam trabalhar no comércio, com vendas de produtos e frutas, mas vieram inicialmente trabalhar na lavoura. Isto foi por pouco tempo, depois eles saíram da lavoura e logo eles ingressaram na rede ferroviária, nesta ocasião eles já tinham uma situação financeira melhor. Eles, na sua vinda para o Brasil, vieram pagando suas passagens.

Família

A nossa casa era pequena, nós tínhamos só quatro cômodos na casa e um quartinho pequeno, o banheiro era fora de casa. Aí depois com o tempo quando a família foi crescendo, nós fomos trabalhando, ajudando na manutenção da casa, fomos aumentando a casa e hoje temos essa casa grande.

A casa de meus pais foi adquirida de uma outra família italiana. Nós moramos nesta casa há 60 anos.

As tarefas em nossa casa eram divididas. A minha mãe fazia tudo quando a gente era pequeno, mas depois quando a gente foi crescendo, ela foi dividindo as tarefas. As minhas irmãs cuidavam das coisas de casa e a gente cuidava da horta, de rachar lenha, arrumar canteiro e limpar a horta.

O bairro que nós moramos toda vida foi o bairro das Fábricas, aqui era muito gostoso, porque tínhamos muito espaço para brincadeiras: o Oratório São João que ficava onde é a Cacel, e na parte de baixo do jardim, nós não tínhamos rua, era tudo gramado. Então, a gente jogava bola, ou brincávamos de outras coisas, tinha o jogo de bocha e víamos o trem passar. Meu pai a princípio, quando se casou, ele tirava ouro na serra, depois ele foi ser negociante. A rotina de nossa casa, era o meu pai sempre de serviço, trabalhando e minha mãe fazia o serviço de casa e nós , os filhos, íamos cumprindo nossas tarefa. Na família, meu pai tinha mais autoridade. Ele era muito bom, mas era muito enérgico, porque gostava das coisas muito direitas, não gostava de coisa errada e nem de mentira. A minha mãe era um pouco mais maleável.

Escola/Educação

Sempre fomos incentivados para estudar, mas só que a gente não tinha muitas condições financeiras. Por isso nós trabalhávamos durante o dia e estudávamos à noite. Entrei na escola com sete anos, e eu mesmo me matriculei, com a certidão de nascimento que meu pais havia me dado. Minha primeira escola foi o grupo escolar Aureliano Pimentel. Naquela época, na escola, apanhávamos muito, mas era muito gostoso, era bem diferente da escola de hoje.

A educação influenciou muito na minha personalidade. Tínhamos que obedecer aquelas regras rígidas da escola, fazíamos as tarefas e se não podia faltar mesmo. Eu estudei até os doze anos. Estudei uma parte no turno da manhã e uma parte no turno da tarde. Porque o 1º e 2º ano funcionavam no turno da tarde, e à partir do 3º ano era no turno da manhã. Então nós saíamos de casa com as mochilas, quer dizer não tinham mochilas, nós levávamos o embornal, com pouco caderno e material escolar.

A educação religiosa que tivemos foi a católica. Tivemos educação política por causa das pessoas do bairro e também de meu pai, que gostava muito da política, particularmente do partido UDN (União Democrática Nacional).

Vida no bairro

Quando eu era criança a situação era bem diferente. Nós não tínhamos calçados direito e tínhamos muita dificuldade de ordem financeira. O problema era sério na época, porque nossa família era muito grande. Mas tínhamos muitos amigos, todo mundo aqui no bairro era amigo, essa criançada toda. Quando eu crescesse, pretendia ser um grande historiador, mas enfim, não deu. Minhas brincadeiras preferidas eram pique-pega e pique de esconder.

Trajetória profissional

Atualmente eu trabalho no Museu Regional. Meu primeiro emprego foi no Colégio São João por pressão familiar, para ter uma atividade. Então eu estudava e ia para o colégio. Mas a primeira profissão que tive foi a de encadernador, depois interrompi esta atividade e fui para o colégio. Só mais tarde foi que arrumei trabalho no Museu Regional. Desenvolvi meu campo profissional através do cargo de encadernador, do qual gostei muito, tanto que hoje exerço a função de auxiliar de conservação das peças e restauração local. Nesta função organizava arquivos, higienizava os documentos. Este é um trabalho muito interessante, porque ao limpar esses documentos antigos eu descobri a história de nossa cidade, a raiz das pessoas de São João del-Rei. Através dos casos que o pessoal contava, de documentos do comércio de compras e vendas e dos próprios inventários existentes no arquivo do Museu Regional, eu comecei a descobrir coisas novas. Fiquei sabendo sobre as casas residenciais, as casas de espetáculo, casas de óperas, cinemas, casas de danças e até casas de banho. Nestas casas as pessoas tomavam banho e ficava situada na rua Paulo Freitas, nº33. Esse é um trabalho que me gratifica muito, e agora no momento que estou lidando com os processos de crimes, relembro-me dos casos que meu pai contava. Alguns daqueles casos eram horrorosos e descobri vários documentos provando que tudo era verdade, tudo está relacionado entre si e eles se encontram arquivados. É interessante lidar com esta fontes de pesquisas. Não tenho nenhuma pretensão de mudar de trabalho. Acho muito útil o que faço, estou neste trabalho há 18 anos e meio. Sobrevivo deste trabalho. Eu não sairia de São João del-Rei para trabalhar em outro lugar. Meu ideal de trabalho, seria que nós tivéssemos melhores condições para nós desenvolvermos mais a nossa competência.

Cotidiano atual

Moro com a minha mãe e três irmãs, duas irmãs solteiras e três sobrinhos. Hoje a minha atividade mais importante é o meu trabalho, porque serve para manter a casa. É muito interessante o dia, porque cada dia é uma surpresa diferente. Eu gostei muito do dia que eu comecei a trabalhar fichado, igual eu estou hoje, como auxiliar de conservação e restauração, porque eu entrei como serviços gerais e logo fui ser escolhido para auxiliar de restauração. Nas horas de lazer eu planto horta, adoro mexer com plantas. Sou solteiro e não tenho filhos. Gosto de política, e sou da antiga UDN, lembro-me da primeira vez que votei, achei que estava votando no candidato certo e estava cada vez votando errado. Sou católico, mas no momento estou bem afastado da religião, já trabalhei na igreja, fiz parte do Movimento Comunitário Dom Bosco, mas no momento não estou me envolvendo em nada. Gosto de natação e não tenho hobby, não freqüento clubes.

Expectiva de vida

Meu maior desejo é que as coisas melhorassem e que a gente pudesse arrumar emprego para todo mundo, principalmente para os meus sobrinhos. A minha maior decepção é com a situação atual do país. Meu sonho é poder comprar uma casa.

Minha vida hoje é um pouco corrida, a gente corre muito para adquirir as coisas, acho a vida hoje muito apertada. Decidi dar esta entrevista, porque achei fantástica a iniciativa desta idéia das entrevistas de vocês.